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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Amor de Dançarina / Dancing Lady (1933)

Era uma vez Joan Crawford, ou melhor, Janie Bartow. Assim como Mia de La La Land, ela acha que dança bem e está disposta a fazer de tudo para se tornar uma estrela da Broadway. É a MGM dos anos 30, então nós podemos ter certeza de que ela alcançará o sucesso. Porém, aqui o objetivo não é o mais importante – estamos muito mais interessadas na jornada até atingi-lo.

Once upon a time, there was Joan Crawford, or better, Janie Bartow. Like Mia from La La Land, she thinks she can dance and is willing to do anything to become a star on Broadway. It’s 1930’s MGM, so we can be sure she’ll succeed. But here the finish line is not important – we’re much more interested in the journey.
Tod Newton (Franchot Tone) é um homem rico cujo conceito de diversão é bem estranho. Ele paga o ingresso de seus amigos ricos e também de um mendigo para que todos possam assistir a um strip-tease burlesco que acaba com a polícia invadindo o teatro e prendendo as dançarinas. Então Tod vai até a delegacia assistir ao julgamento improvisado. Ele se encanta com Janie (Crawford) e paga a fiança de 30 dólares, livrando-a da cadeia.

Tod Newton (Franchot Tone) is a rich man whose concept of fun is a little weird. He pays entrances to his rich friends and also to a beggar for a Burlesque striptease act that ends up with the dancers being arrested for indecency. Then Tod follows the girls to the court in order to see the brief judgment. He is then smitten by Janie (Crawford) and pays the $30 bail to free her from jail.
Janie conta a Tod que ela quer ser levada a sério como dançarina. No dia seguinte, ela vai atrás deste sonho e também do Midas do teatro musical Patch Gallagher (Clark Gable). Ela não consegue nem chegar perto dele para pedir para fazer um teste, e mais uma vez Tod a ajuda.

Janie tells Tod that she wants to be a serious dancer. The following day, she chases her dream and goes after musical theater Midas Patch Gallagher (Clark Gable). She can't even get near him to discuss an audition, and once again Tod appears to offer help.
Tod envia uma carta de recomendação ao chefe de Gallagher e Janie é chamada para um teste – mas com os Três Patetas acompanhando-a ao piano. Ela se mostra mais esperta que eles – o que não é muito difícil – e prova que sabe sapatear.

Tod sends a recommendation letter to Gallagher's boss and Janie is given an audition – but with the Three Stooges accompanying her at the piano. She outsmarts them – which is not really difficult – and proves that she can tap dance.
Ela consegue o papel, e frequentemente discute com Gallagher. Ao mesmo tempo, Tod investe no show, e continua paquerando-a. Janie se diverte com ele, mas confessa que não está interessada em casamento – ela quer focar em seu objetivo e ajudar o show a ser um sucesso.

She gets the part, and often clashes with tough Gallagher. At the same time, Tod puts money on the show, and goes on with his courting. Janie has a good time with him, but tells him she's not interesting in marriage – she wants to focus on becoming a real dancer and help the show.
Algumas sequências mais rápidas parecem tiradas de filmes mudos – por exemplo, quando Janie toma o trem para ir até o centro em busca de seu sonho, ou quando ela está seguindo Gallagher. Há também um pouco da audácia dos filmes pre-Code, com roupas transparentes, dançarinas mal cobrindo seus mamilos e um uso específico de sombras enquanto as moças trocam de roupa.

Some fast sequences look like taken from silent films – for instance, when Janie first gets the train to go downtown after her dream, and when she is following Gallagher everywhere in order to be noticed. There is a little pre-Code naughtiness, too, with transparent gowns, dancers barely hiding their nipples and a specific use of shadows when the girls change clothes.
Quando o show finalmente estreia, percebemos que é um espetáculo kitsch. Com o intuito de superar os musicais de Busby Berkeley feitos na Warner, a MGM adiciona a “Amor de Dançarina” um breve momento em que acreditamos que vai começar a mágica do caleidoscópio, mas nada isso acontece. No lugar, temos um tapete voador, Crawford e Astaire com trajes típicos da Bavária – Joan com tranças loiras e Fred com um fino bigode – e então Nelson Eddy interrompendo franceses do século XVIII e convidando-os para virem para os dias atuais – onde, vestidos com celofane, eles dançam e tudo acaba em um carrossel!

When the show finally opens, we realize that it is a kitsch extravaganza. In order to top Busby Berkeley's musicals being made then at Warner, MGM puts in “Dancing Lady” a brief moment in which we believe the kaleidoscopic magic will appear, but it doesn't. Instead, we have a flying carpet, Crawford and Astaire dressed as Bavarians – with Joan in blonde braids and Fred with a thin mustache – and then Nelson Eddy interrupting French people from the 18th century and inviting them to the modern days – where, dressed in cellophane dresses, they have a dance-off that ends in a merry-go-round!
Em sétimo nos créditos, atrás de uma atriz chamada Winnie Lightner, há alguém chamado Fred Astaire. Pior, creditados como auxiliares, temos Nelson Eddy e Sterling Holloway. Pior ainda, Eve Arden e Lynn Bari sequer são creditadas!

Seventh billed, behind someone called Winnie Lightner, there is another someone called Fred Astaire. Worse, billed as supporting players, we have Nelson Eddy and Sterling Holloway. Even worst, Eve Arden and Lynn Bari are not even credited!

“Amor de Dançarina” foi a estreia de Fred no cinema, e ele interpreta a si mesmo. Embora Joan seja convincente como dançarina, para seu parceiro Fred a dança vem naturalmente – ele é mais gracioso, leve, como se ele tivesse nascido sabendo dançar. Em seu filme seguinte, ele novamente interpretaria alguém chamado Fred – mas desta vez, ele dançou com Ginger Rogers, e o resto é história.

“Dancing Lady” was Astaire's film debut, and he goes by his real name. Although Joan is believable as a dancer, for her partner Fred it comes naturally – he's smoother, lighter, like he was born dancing. In his next movie, he would once again play a character named Fred – but this time, he was paired with Ginger Rogers, and the rest is history.
Nelson Eddy também estreou no cinema em 1933, mas “Amor de Dançarina” não foi seu primeiro filme – embora tenha sido o primeiro em que ele recebeu crédito. O diretor de “Amor de Dançarina”, Robert Z. Leonard, dirigiria quatro musicais de Eddy com Jeanette MacDonald.

Nelson Eddy also debuted on film in 1933, but “Dancing Lady” wasn’t his very first movie – it was, however, the first in which he was credited. Director Robert Z. Leonard directed “Dancing Lady”, and would go on to direct four Eddy – MacDonald musicals.
Franchot Tone interpreta o playboy rico interessado na protagonista – o mesmo tipo de papel que ele interpretaria no ano seguinte em “Boca para Beijar”, desta vez ao lado de Jean Harlow. O próprio Tone era de uma família rica e havia estudado na Cornell University – neste contexto, ele era o oposto de Joan Crawford. Joan e Franchot estavam namorando durante as filmagens de “Amor de Dançarina”, mas negavam o namoro para os jornalistas que perguntavam – afinal, o divórcio de Joan de Douglas Fairbanks Jr ainda não havia saído. Há boatos de que a rivalidade entre Bette Davis e Joan começou em 1935 foi causada por Franchot.

Franchot Tone plays the rich playboy interested in the leading lady – the same kind of role he’d play the following year in “The Girl from Missouri”, this time with Jean Harlow. Tone himself was from a wealthy family and attended Cornell University – in this sense, he was the opposite of Joan Crawford. Joan and Franchot were dating when “Dancing Lady” was being filmed, but they denied the romance to the magazine columnists who asked about it – after all, Joan’s divorce to Douglas Fairbanks Jr wasn’t yet completed. Rumor has it that Franchot was the reason behind Bette Davis’s and Joan’s feud, which started in 1935.
“Amor de Dançarina” foi um grande sucesso, mas não é nenhuma obra-prima. Nele falta a redenção e o toque sério que existem nos números finais dos musicais da Warner Brothers. É um filme de muitas estreias no elenco coadjuvante, mas ele pertence a Joan Crawford, e é seu carisma que nos faz acreditar que qualquer um pode triunfar na Broadway.

“Dancing Lady” was a huge success, but it’s far from a masterpiece. It lacks the redemption and serious touches that Warner Brothers musicals added to their finales. It’s a film of many debuts in the supporting cast, but it belongs to Joan Crawford, and her charisma that makes us believe anyone can triumph on Broadway.


This is my contribution to the Franchot Tone blogathon, hosted by Emily at Finding Franchot.

sábado, 15 de abril de 2017

Conflito de Duas Almas / Golden Boy (1939)

Nós comumente pensamos – porque, fala sério, é mais fácil pensar desta maneira – que as pessoas podem ser colocadas em categorias. Assim, achamos que atletas não gostam de arte e que aqueles que trabalham com a cabeça não gostam de cuidar da aparência. Tudo isso é bem diferente da verdade, e a convivência – não exatamente pacífica – de interesses opostos na vida de um jovem é o tema principal de “Conflito de Duas Almas”.

We usually think – because, come on, it's easier to think this way – that people can be put in little stereotypical jars. This being, we think that athletes don't like arts and the ones who use their brains are not so good at physical activities. This is actually far from the truth, and the convivence – not exactly pacific – of opposing interests in a young man's life is the main theme in “Golden  Boy”.
Joe Bonaparte (William Holden) é um grande boxeador. Ele aprendeu o esporte em academias e nas ruas, longe de seu pai, e agora é uma promessa do esporte. Por que o pai de Joe não pode saber que o filho luta boxe? Porque o velho homem quer que o filho se torne um grande violinista – e este não é um sonho impossível, porque Joe também é muito bom com o violino.

Joe Bonaparte (William Holden) is a great boxer. He learned boxing in gyms and at the street, without his father's knowledge, and now is a promise of the sport. Why can't his father know? Because the old man's hope is to see his son becoming a great violinist – and this isn't an impossible dream, because Joe is also very good with the violin.
Mas Joe terá de tomar uma decisão – ou deixar que alguém a tome por ele. O entusiasmo da família e dos amigos quando ele toca violino o fazem ter motivação para praticar mais e mais. Por outro lado, se ele for um bom boxeador e ganhar várias partidas, ele ajudará seu empresário, Tom Broody (Adolphe Menjou), a se divorciar e se casar com Lorna Moon (Barbara Stanwyck).

But Joe has to make up his mind – or let someone else do it for him. His family's and friends' enthusiasm when he plays the violin make him practice more and more. On the other hand, if he is a good boxer who wins several matches, he'll help his manager, Tom Broody (Adolphe Menjou) to settle his divorce and marry his sweetheart Lorna Moon (Barbara Stanwyck).
Como fã de cinema clássico e de William Holden, você deve saber que ele só foi escalado para ser o protagonista aqui – no primeiro filme em que ele recebeu crédito – porque Barbara Stanwyck insistiu. Holden não está mal, mas não podemos negar que uma gama maior de emoções é exigida de Stanwyck.

As a fan of classic film and William Holden, you may know that he was cast as the lead here – the first film in which he was credited - by Stanwyck's insistence. Holden is not bad, but we can't deny that a lot more acting range is demanded from Stanwyck.
Holden é convincente como violinista, mas as tomadas longas na luta final não nos deixam vê-lo muito bem, e alguém pode até pensar que era um dublê que estava no ringue. A luta não é nem de perto tão emocionante quanto a melhor luta já filmada para um longa-metragem, em “Corpo e Alma” (1947). Uma curiosidade: John Garfield, o boxeador em “Corpo e Alma”, estava entre as opções para protagonizar “Conflito de Duas Almas”.

Holden is convincing as a violinist, but the long shots in the final fight don't let us see him very well, and one may even think it was a double in the rink. The fight is nowhere nearly as exciting as the best boxing match ever shot for a film, in “Body and Soul” (1947). One curious trivia: John Garfield, the boxer in “Body and Soul”, was considered briefly for the role in “Golden Boy”.
Eu fiquei animada ao descobrir que “Conflito de Duas Almas” foi dirigido por Rouben Mamoulian, um dos mais menosprezados diretores de todos os tempos, na minha opinião. Ele esbanjou criatividade na transição da era muda para a falada, quando fez ótimos filmes com pequenas experiências sonoras, como “Aplausos” (1929), “Ruas da Cidade” (1931) e “Ama-me esta noite” (1932), e também contou a história de uma personagem feminina forte em “Rainha Cristina”(1933).

I was excited to discover that “Golden Boy” was directed by Rouben Mamoulian, one of the most underrated directors ever, in my opinion. He was his most creative in the transition from the silent era to the talkies, when he made great movies with little sound experiences, like “Applause” (1929), “City Streets” (1931) and “Love Me Tonight” (1932), and also told the story of a fierce female character in “Queen Christina” (1933).
O torpe e vil código Hays tolheu sua criatividade, e em “Conflito de Duas Almas” ele se mostra seguro em relação ao seu trabalho, mas sem toques de mágica. O que é interessante sobre Mamoulian aqui é que ele havia sido escalado para dirigir “A Mulher faz o Homem” para a Columbia, enquanto Frank Capra se encarregaria de “Conflito de Duas Almas”. Foi Capra quem pediu para trocar de projeto com Mamoulian.

The pure evil Production Code cut his creativity short, and in “Golden Boy” he is sure of his job, but not exactly magical. What is interesting about Mamoulian here is that he was supposed to direct “Mr Smith Goes to Washington” for Columbia studios, while Frank Capra was supposed to direct “Golden Boy”. Capra was the one who asked to change projects with Mamoulian.
Mamoulian is on the left, with a light suit and wearing glasses
“Conflito de Duas Almas” é um bom filme, talvez um pouco longo demais e previsível. Mas, para Holden, era apenas o começo. O melhor ainda estava por vir...

“Golden  Boy” is a nice movie, maybe a little too long and predictable. But, for Holden, it was just the beginning. The best was yet to come...


This is my contribution to the 2nd Golden Boy Blogathon, hosted by Virginie at The Wonderful World of Cinema.

domingo, 9 de abril de 2017

The (many) stuff that dreams are made of

Sam Spade toca o famoso Falcão Maltês quando ele diz a frase mais importante daquele filme de 1941 que foi o estopim do que conhecemos hoje como filme noir: “é o material de que são feitos os sonhos”. Ele havia acabado de entregar a mulher que ama para a polícia porque ela havia mandado matar o sócio dele, e o policial Tom havia lhe perguntado o que era aquela estatueta. Foi uma bela descrição, não?

Sam Spade touches the infamous Maltese Falcon when he says the most important line in that 1941 movie that kick-started what we know now as film noir: “the stuff that dreams are made of”. He had just given in the woman he loves to the police because she had his partner killed, and is answering policeman Tom, who asked what that statuette was. Great description, isn't it?
A famosa frase foi na verdade tirada de A Tempestade, de William Shakespeare. No original, ela era um pouco mais arcaica: “nós somos como os materiais de que as coisas são feitas”. A frase foi levemente modernizada para o filme, 330 anos após a peça ter sido escrita.

The famous line was actually taken from William Shakespeare’s The Tempest. In the original, it sounded a bit more archaic: “we are such stuff as dreams are made on”. The line was updated in the film 330 years after the play was written.

Uma vez que a frase é usada para descrever a estatueta, podemos dizer que ambas, frase e estátua, têm um lugar importante no imaginário cinematográfico e na cultura pop.

Since the quote is used to encapsulate the statuette, it can be said that both have an important place in the imaginary and pop culture.
A estatueta é o McGuffin do filme: se ela não existisse, não haveria filme – e muitos personagens viveriam felizes para sempre. A estatueta é uma pequena relíquia do século XVI, dada pelos Cavaleiros Templários de Malta para o Rei Carlos V da Espanha. A estatueta estsva indo em uma galé para ser entregada ao rei quando foi roubada por piratas e desapareceu durante séculos – até entrar nas vidas de Spade (Humphrey Bogart), Brigid O'Shaughnessy (Mary Astor), Joel Cairo (Petter Lorre), Kasper Gutman (Sydney Greenstreet) e de muitas outras pessoas (incluindo, claro, as nossas vidas).

The statuette is the McGuffin of the film: if it didn't exist, there would be no film – and many characters would live happily ever after. The statuette is a small relique from the 16th century, given by the Knight Templars of Malta to King Charles V of Spain. The statuette was travelling by galley to reach the king when it was stolen by pirates and it remained unseen for centuries – until it entered the lives of Spade (Humphrey Bogart), Brigid O'Shaughnessy (Mary Astor), Joel Cairo (Peter Lorre), Kasper Gutman (Sydney Greenstreet) and many others (including, of course, our lives).
O filme de 1941 foi a terceira versão cinematográfica da história – houve também versões em 1931 e 1936 – e esta é a versão definitiva. Seguindo o livro quase palavra a palavra, o filme foi um sucesso e ainda é um dos mais queridos clássicos de todos os tempos.

The 1941 film was the third telling of the story on the screen – there were also versions in 1931 and 1936 – and this is the definitive one. Following the book almost verbatim, the film was a success and remains as one of the most cherished movies of all time.
E não há melhor elogio que a paródia. “O Falcão Maltês” foi parodiado em diversas ocasiões, incluindo em episódios de desenhos animados como “Animaniacs” e “Os Mistérios de Frajola e Piu-Piu” - em um episódio chamado “O Canário Maltês!”

And there is no better compliment than parody. “The Maltese Falcon” was parodied in several occasions, including in episodes of cartoons such as “Animanics” and “The Sylvester and Tweety Mysteries” - in an episode called “The Maltese Canary”!
Com o tempo, a frase ficou mais famosa que a estatueta – e até mais que o próprio filme. Enquanto o filme era constantemente citado por nome ou em cartazes em filmes e programas de TV do passado, hoje encontramos mais referências à frase do que qualquer coisa. Ela já foi pronunciada em séries como “Castle” e “Brooklyn Nine-Nine”, e também em videogames! Em 2005, ela ficou na 14ª posição na lista de frases mais conhecidas do cinema, feita pela AFI.

With time, the quote became more famous than the statuette – and even the whole movie. While the film was constantly referred by name or with posters in other movies and TV shows of the past, nowadays we find more references to the quote than to anything else. It has already been said in the series “Castle” and “Brooklyn Nine-Nine”, and also in videogames! In 2005, it was voted the 14th best know quote in film history by AFI.

No passado recente, “o material de que são feitos os sonhos” se tornou título de uma música de Carly Simon, de uma revista em quadrinhos estranha e muitos posts e artigos, relacionados ou não com o filme de 1941.

In the recent past, “the stuff that dreams are made of” became the title of a Carly Simon song, of a weird comic book and of many blog posts, related or not to the 1941 film.
Além do mais, a frase inspirou vários fãs que criaram arte baseada nela! Não é difícil encontrar desenhos, fan art diversa e até acessórios com a frase, como este adorável broche feito pela talentosa Kate Gabrielle:

Furthermore, the quote has inspired many dedicated fans to make art based on it! It's not difficult to find drawings, diverse fan art and even wearables with the quote, like this lovely enamel pin by talented Kate Gabrielle:
Se você realmente quer descobrir qual é  “o material de que são feitos os sonhos”, há um preço a pagar: 4 milhões e 85 mil dólares! Um dos dois objetos de cena usados de verdade no filme foi vendido por esta quantia em um leilão em 2013 – e era esperado que ele fosse vendido por apenas um milhão e meio. Nada mal, considerando-se que o objeto foi responsável por machucar duas unhas dos dedos dos pés de Humphrey Bogart quando ele caiu acidentalmente.

If you really want to discover what is “the stuff that dreams are made of”, there is a price to pay: exactly 4,085,00 dollars. Yes, more than four million dollars! One of the two props actually used in the film was sold by this much in an auction in 2013 – where it was expected that the object would sell at only 1,5 million. Nothing bad, considering that this prop was responsible for injuring two of Bogart's toenails when it accidentally fell from Bogie's hands.
Pensando em tudo isso, podemos mudar a frase mais uma vez para usá-la para descrever o meio cinematográfico, aquele que conferiu imortalidade para a história de Dashiell Hammet: sem dúvida, os sonhos são o material de que é feito o cinema.

Thinking about all this, we can change the quote once more to use it to describe the cinematic medium, the one that brought immortality to Dashiell Hammet's story: without a doubt, cinema is a stuff made of dreams.


This is my contribution to the Second Annual ClassicQuotes blogathon, hosted by Emily at Flapper Dame.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Corações Enamorados / Young at Heart (1954)

Quando eu comecei a assistir a “Corações Enamorados” (1954), eu esperava momentos agradáveis em uma comédia romântica com Doris Day e Frank Sinatra. Mas eu fui trouxa! É uma história de amor, sim, mas muito mais sombria do que eu esperava. E eu gostei de cada minuto do filme.

When I started watching “Young at Heart” (1954), I thought I was in for a treat: a romantic comedy with Doris Day and Frank Sinatra. Boy, how wrong I was! It is a love story, yes, but much darker than I expected. In the end, I was shaking. And I enjoyed every minute of it.
A música corre no sangue da família Tuttle. O pai, Gregory (Robert Keith), é, obviamente, professor de música. As três filhas tocam instrumentos, mas estão mais interessadas em outra coisa: se casar. Quando a mais velha, Fran (Dorothy Malone) anuncia seu noivado, as mais novas, Laurie (Doris Day) e Amy (Elisabeth Fraser), ficam com medo de se tornarem solteironas como a tia Jessie (Ethel Barrymore), que também vive com eles.

Everybody loves music in the Tuttle family. The father, Gregory (Robert Keith), is, obviously, a music teacher. The three daughters all play instruments, but they’re more interested in one thing: getting married. When the oldest, Fran (Dorothy Malone) tells the family she is engaged, the two younger girls, Laurie (Doris Day) and Amy (Elisabeth Fraser), fear becoming spinters like aunt Jessie (Ethel Barrymore), who also lives in the house.
Um dia, um belo estranho chega à cidade. Ele não é Frank Sinatra, e nem é desconhecido. Ele é Alex Burke (Gig Young), um músico cujo pai era um grande amigo de Gregory Tuttle. Ele veio estudar no conservatório de Gregory e fica hospedado na casa dos Tuttle. Ele se apaixona por Laurie à primeira vista. Entretanto, todas as três irmãs Tuttle se apaixonam por ele.

One day, a tall dark stranger arrives in town. He is not Frank Sinatra, and he’s not such a stranger either. He is Alex Burke (Gig Young), a musician whose father was best friends with Gregory Tuttle. He came to study at Gregory’s conservatory and to live in the Tuttle’s house. He is instantly smitten with Laurie. However, all three Tuttle sisters fall for him.
Laurie e Alex parecem feitos um para o outro. Então chega outro homem: Barney Sloan (Frank Sinatra) chega para ajudar Alex com arranjos para pian0. Barney é um músico tão talentoso quanto Alex – talvez até mais – mas é muito amargo. Ele está sempre reclamando, nunca sorri e culpa tudo e todos por seus fracassos.

Laurie and Alex seem perfect for each other. Then another guy arrives: Barney Sloan (Frank Sinatra) comes in to help Alex with some piano arrangements. Barney is as talented a musician as Alex – maybe even more – but he is too bitter. He’s always complaining, never smiles, blames everybody and everything for his lack of success.
Laurie fica interessada neste homem cínico e se apaixona. Isto prova que o “amor à primeira vista” é um mito e que na verdade a “animosidade no primeiro encontro” é o verdadeiro indicativo de amor (alerta de sarcasmo!). E quando você pensa que tudo vai muito bem, vem a tragédia.

Laurie gets interested in such a cynical character and falls in love. This proves that “love at first sight” is a myth and actually “animosity at first encounter” is the real indicative of love (sarcasm alert!). And when you think everything is wonderful, tragedy strucks.
“Corações Enamorados” foi o primeiro filme produzido pela Arwin Productions, companhia de Doris Day e de seu marido Martin Melcher. Sinatra não gostava nada de Melcher, e insistiu para que ele ficasse longe do set. Frank tentou alertar Doris para o comportamento do marido, mas não funcionou: 14 anos depois, quando Doris e Martin se separaram, ela descobriu que ele a havia deixado sem dinheiro algum.

“Young at Heart” was the first film produced by Arwin Productions, a company owned by Doris Day and her then husband Martin Melcher. Sinatra disliked Melcher immensely, and demanded him to not be allowed on set. Frank tried to prevent Doris of her husband’s behavior, but it didn’t work: 14 years later, when Doris and Martin divorced, she found out he had left her penniless.
Doris Day & Martin Melcher
E este não foi o único problema que Sinatra causou no set. Ele exigiu que o final fosse modificado – porque “Corações Enamorados” é um remake de “Quatro Filhas”, que foi o primeiro filme de John Garfield. Ele também brigou com o diretor de fotografia, Charles Lang, e exigiu que Ted D. McCord substituísse Lang. Estes episódios mostram que Frank podia ser tão amargo quanto seu personagem, mas outra situação no set mostra seu lado doce: ele organizou uma festa de aniversário surpresa para Ethel Barrymore, então com a saúde frágil, e ela adorou a gentileza.

And this wasn’t the only trouble Sinatra caused on set. He demanded the ending to be changed – because “Young at Heart” is a remake of “Four Daughters” (1938), which was John Garfield’s screen debut. He also argued with the first director of photography, Charles Lang, and demanded Ted D. McCord to replace Lang. These episodes show that Frank could be as bitter as his character, but another on-set situation shows his sweet side: he threw a surprise birthday party for co-star Ethel Barrymore, who was then in frail health, but who loved the gesture.  
Sinatra e Day cantaram juntos no rádio em várias ocasiões nos anos 40 e são suas músicas, cantadas solo ou em dueto, o destaque de “Corações Enamorados”. No filme, eles não têm muita química – o que eles demonstram é mais muita compaixão. Ethel Barrymore é ótima no começo, mas quase desaparece com o andamento do filme. Gig Young é como um Ralph Bellamy para Doris Day – o que significa que em amis de um filme ele quase se casa com ela, mas acaba perdendo-a.

Sinatra and Day sung together in radio in various occasions of the 1940s and their songs, sung in a duet or not, are the highlight of “Young at Heart”. In the movie, they don’t have a great chemistry – it’s rather a lot of compassion what they have. Ethel Barrymore is delightful in the beginning, and nearly vanishes as the film progresses. Gig Young is a Ralph Bellamy type to Doris Day – which means that more than once he almost marries her character, but ends up losing her.
Não é mais um musical escapista. Em sua fórmula e andamento, é muito similar a “Música e Lágrimas”, feito no mesmo ano. Sinceramente, eu gostei de “Corações Enamorados” e não sei como me sentir em relação ao outro fim que fora antes considerado. Fico feliz que o filme tenha acabado com um clima positivo – o que é muito mais apropriado para sua época e suas estrelas.

It’s not another feel-good musical. In pace, it’s very similar to “The Glenn Miller Story”, released the same year. Sincerely, I liked “Young at Heart”, and I’m not sure about the other end that was first planned. I’m happy it at least ended in a positive note – much more suitable for its time and its stars.


This is my contribution to the Doris Day blogathon, hosted by sweet Michaela at Love Letters to Old Hollywood. Here’s our love letter to Dodo!

sexta-feira, 31 de março de 2017

Jack Lemmon Blogathon - Day 2

This is a consensus among classic film fans: Jack Lemmon was a sweet guy (ha! See what I did there?) and a fantastic actor. His most famous work ended with the line "nobody's perfect", but we firmly believe that Mr Lemmon was close to perfection.
He could play any role and make it believable and human - that's why we're here together to celebrate his impressive body of work.
Day 1 of the blogathon was hosted by my friend and co-host Rich at Wide Screen World.
A fictional representation of Rich and me, agreeing on doing this blogathon


Now, without further ado, here are the links for Day 2:

Real Weegie Midget

Silver Screenings

Cinema Cities
Days of Wine and Roses (1962)

Old Hollywood Films
The Odd Couple (1968)

Cary Grant Won't Eat You
The Fortune Cookie (1966

Whimsically Classic
Some Like It Hot (1959)  

A Shroud of Thoughts
The Apartment (1960) 

Wide Screen World
The Out-of-Towners (1970)

Thank you to all who have made this event possible!

quinta-feira, 30 de março de 2017

Variações sobre um mesmo tema: 12 Homens e uma Sentença (1957 e 1997)

Variations on the same theme: 12 Angry Men (1957 & 1997)

Quando os remakes são necessários? Eu costumava achar que remakes nunca eram necessários – até ver o filme feito para a TV “12 Homens e uma Sentença”, de 1997. Sim, é exatamente igual ao filme de 1957, e Jack Lemmon era basicamente minha única razaão para vê-lo. Mas ver este filme me deu a reposta para minha questão inicial: remakes são necessários para contar grandes histórias para as novas gerações.

When are remakes necessary? I used to think that remakes are never necessary – until I saw the 1997 TV movie “12 Angry Men”. Sure, it is exactly like the 1957 movie, and Jack Lemmon was basically my only reason to see it. But it made gave me an answer for my initial quesiton: remakes are necessary to tell great stories to younger generations.
O próprio filme de 1957 é um remake de um filme para a TV feito  em 1954. Isto significa que a versão de 1997 significou apenas que a história voltou às origens – mas, desde vez, a cores. E as cores são, de fato, o elemento principal aqui.

The 1957 film is itself a remake of a 1954 TV attraction. It means that the 1997 version is only the story coming back to its origins – but, this time, in color. And color is, indeed, the main element here.
A trama se desenrola em um único ambiente – a sala em que os jurados estão reunidos para decidir o veredicto – e a exigência principal é que nós, enquanto espectadores, sintamos como o lugar é claustrofóbico. Neste sentido, a versão de 1957 funciona melhor: o suor em preto e branco fica mais evidente, e todo o ambiente parece mais opressivo que em 1997.

The story unfolds in only one environment – the room in which the jury is left to decide the verdict – and a main exigence is that we, as viewers, must feel how claustrophobic the place is. In this sense, the 1957 version works better: sweat in black and white appears better, and the whole environment seems more oppressive than it did in 1997.
E então chegamos à cor da pele. Na versão de 1997 temos quatro jurados negros, entre jovens e velhos. Na de 1957, você pode adivinhar: não há nenhum. E tem mais: em 1997  o próprio acusado é negro. Em 1957 ele apenas vem de um bairro pobre, e é de origem filipina.

And then we come to skin color. In the 1997 version, there are four black jurors, old and young. In the 1957 version, you guessed: not even one. And there is more: in the 1997 version the accused is himself black. In the 1957 one he only comes from the slums and is Filipino.
Ainda mais interessante que o componente racial é a idade, especificamente na versão de 1997. Nesta, a idade dos jurados varia muito, enquanto na de 1957 eles parecem regular em idade. Na versão mais recente, temos Hume cronyn como o jurado mais velho, Jurado nº 9, e ele é abertamente desrespeitado. Ele é quase careca e usa uma bengala – e também é sempre interrompido quando tenta dar sua opinião na primeira meia hora do filme. É preciso que Jack Lemmon, como o Jurado nº 8, o defenda e exija que os outros o deixem falar. E aí é formada uma conexão instantânea entre eles.

Even more interesting than the race component is the age, especifically in the 1997 version. In it, the jurors' age vary a lot, while in the 1957 version they looked basically the same age. In the most recent version, we have Hume Cronyn as the oldest juror, Juror #9, and he is by far the most disrespected. He is nearly bald and walks with a cane – and is also interrupted whenever he tries to give his opinion in the first half an hour or so. It takes Jack Lemmon, as Juror #8, to stand for him and ask the others to let him talk. A connection is then instantly formed between the two.
O jurado que aparenta menos idade é o que mais desrespeita os outros, incluindo o nº 8: ele desconsidera as ideias de Jack Lemmon e tenta confrontá-lo no banheiro. Era de se esperar que os jurados mais jovens tivessem a mente mais aberta, e é o oposto que ocorre. É mais fácil para os jurados mais velhos serem empáticos com o acusado, com uma exceção: George C. Scott como o Jurado nº 3 será difícil de convencer porque ele está julgando o caso de maneira emocional.

The juror who looks the youngest is the most disrespectful towards the others, including #8: he takes Jack Lemmon's ideas for granted and tries to confront him in the bathroom. We were expecting the youngest jurors to be more open-minded, and the opposite happens. It's easy for the older jurors to feel empathy for the accused, withone exception: George C. Scott as Juror #3 will be difficult to convince because he's using his emotions to judge the case.
Com remakes focados só em mulheres, como o remake de “Ghostbusters” de 2016 e o futuro remake de “11 Homens e um Segredo”, eu não pude parar de pensar em uma nova versão da história: o filme “12 Mulheres e uma Sentença”. Bem, o próprio título não é muito bacana, porque soa como uma comédia misógina. Mas o sexismo vai mais fundo aqui: eu acho que nunca haverá uma versão toda feminina do filme porque nem na vida real as pessoas aceitariam bem um júri só de mulheres – exceto em casos em que isto é uma estratégia da defesa ou da acusação. Em outros casos haveria protestos, e pessoas dizendo algo estúpido como “mulheres sozinhas não podem julgar um caso porque elas serão guiadas pela emoção e não pela razão”.

With the many women-focused remakes, like the “Ghostbusters” one in 2016 and the upcoming “Ocean’s Eleven”, I couldn’t stop thinking about a new version of the story: a “12 Angry Women” film. Well, the title itself is not encouraging, because it sounds like a stupid misogynistic comedy. But the sexism is even deeper here: I think there will never be an all-female version of the movie because not even in real life people would accept an all-female jury – except when it's part of the defense's or the prosecution's strategy. In other cases there would be protest, with people saying something stupid like “women alone can’t judge a case because they’d be driven by emotion and not reason”. 
Jack Lemmon foi, sem dúvida, a alma do filme – assim como Fonda foi da versão de 1957. Ele não é um herói perfeito: ele vota em “inocente” não porque ele acredita na inocência do réu, mas sim porque não está convencido de sua culpa. Ele acredita que o caso deve ser analisado com cuidado, afinal, eles estão decidindo se um jovem vai ou não receber a pena de morte! Ele é apenas justo, ele é apenas humano – e o faro de que um personagem assim seja considerado um herói e uma inspiração nos diz muito sobre a corrupção já enraizada na sociedade.

Jack Lemmon was, without a doubt, the heart and soul of this movie – just like Fonda was in the 1957 version. He is not a flawless hero: he votes “not guilty” not because he is sure of the  innocence of the accused, but because he is not either sure of his guilt. He thinks the case must be thought over, after all, they could be sending a young man to the death row! He is only fair, he is only human – and yet the fact that such a character is considered a hero and an inspiration tells a lot about how corrupt society is becoming in its roots.
No ano seguinte à estreia do telefilme, este esteve no centro de um momento inesquecível na história do Globo de Ouro. Na categoria de Melhor Ator em Minissérie Filme para TV, Ving Rhames ganhou o prêmio. Chocado, durante seu discurso ele disse que não merecia o prêmio e chamou Jack Lemmon para o palco – e simplesmente deu a estatueta a Lemmon. Houve muito burburinho e mal-estar ao redor do evento. Ambos os atores foram aplaudidos de pé, e Rhames não quis receber a estatueta de volta. Mais tarde, a Hollywood Foreign Press Association, entidade responsável pelo prêmio, deu uma cópia da estatueta a Rhames.

The year after the TV movie was released, it was in the center of an unforgettable moment in Golden Globes history. In the Best Actor in a TV Movie or Miniseries category, Ving Rhames won the award. In awe, during his speech, he said he didn't deserve the award and called Jack Lemmon to the stage – and simply gave the trophy to Lemmon. There was a lot of buzz and a good deal of awkwardness surrounding the event. Both actors received an standing ovation, and Rhames didn't accept the trophy back. Later, the Hollywood Foreign Press Association, the entity responsible for the Golden Globes, gave Rhames a duplicate of the trophy.
Jack Lemmon fez tudo ser melhor – comédias, dramas, remakes e até premiações!

Jack Lemmon made everything better – comedies, dramas, remakes and even award shows!


This is my contribution to the Jack Lemmon blogathon, hosted by my friend Rich at Wide Screen World and moi right here at Critica Retro.
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